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terça-feira, 1 de abril de 2014

O Herói


Quando um bebê nasce, ele não tem referências para o que está ocorrendo ao seu redor e nem tem noção de si próprio como uma entidade isolada: sua ideia de “eu” ainda não foi construída.  Ainda assim, logo que se dá conta do mundo, ele demonstra interesse por algo que tenha o aspecto de um rosto – mesmo que seja um círculo com dois pontos no lugar dos olhos e uma linha curva representando a boca.  E por que?  Porque a capacidade de distinguir um rosto das demais formas auxilia a sobrevivência.  Desde tempos imemoriais, os bebês que tinham essa capacidade levavam vantagem sobre os outros, pois tinham maiores chances de criar vínculos, ser alimentados, cuidados – e, consequentemente, de crescer e se reproduzir. Nós herdamos essa característica pela via genética e até hoje, mesmo quando adultos, acabamos “vendo” rostos em nuvens, árvores, sombras ou manchas de tinta: é uma manifestação do fenômeno cognitivo chamado pareidolia, que nos acompanha desde o nascimento. 
 
Existe a tese de que o ser humano vem ao mundo “em branco”, pronto para ser preenchido – uma noção sugerida por Aristóteles e depois retomada diversas vezes ao longo da história por pensadores como John Locke e Jean-Jacques Rousseau. Contudo, ela vem sendo enfraquecida diante das evidências de comportamentos inatos, como o caso dos bebês procurando rostos e dos pássaros que nascem em cativeiro mas sabem construir um ninho tão bem quanto seus ancestrais.   Não se nega a importância das influências do meio sobre o indivíduo, mas é reconhecida a existência de fatores inatos.

O psiquiatra C. G. Jung postulou que o ser humano traz, em si, certas pré-disposições ou modos de reagir ao seu entorno: uma espécie de psique pré-formada, decorrente de nosso processo evolutivo, que se manifesta por meio de determinadas formas universais: os chamados arquétipos.  O arquétipo do herói, por exemplo, é um dos mais amplamente reconhecíveis, pois todas as culturas têm mitos envolvendo pessoas corajosas que enfrentam dificuldades e, de uma forma ou de outra, deixam sua marca no mundo.  Significativamente, as dificuldades são sempre proporcionais às forças do personagem, como se os deuses soubessem o quanto de pressão ele pode suportar. 


Uma das coisas que torna o herói fascinante é que ele sabe ser capaz de enfrentar o sofrimento e, por isso, não se deixa paralisar.  A Odisseia, o poema épico de Homero, traz um exemplo marcante: o herói Ulisses, prisioneiro e amante da deusa Calipso, explica-lhe que precisa ir embora para rever a esposa, mesmo tendo que enfrentar todas as dificuldades e sofrimentos da jornada.  Não é o discurso de alguém conformado com o sofrimento, mas sim de alguém que sabe ser capaz de suportá-lo.  Homero, ao escrever a Odisseia, estava materializando mais uma história universal, como tantas outras que viriam a ser produzidas em todas as partes do mundo.  Não se sabe até que ponto ele se inspirou em narrativas pré-existentes, mas não importa, pois - como já explicou o genial mitólogo Joseph Campbell - os mitos não são simplesmente inventados: são descobertos.  Cada autor, cada tribo ou cada nação, ao dar forma a um mito, está basicamente colocando para fora algo que já existia dentro de todos nós.  

 
Isto não é um rosto: são dois pontos
e uma linha dentro de um círculo.
Temos uma pré-disposição inata a procurar padrões de rostos, 
assim como reagir a certos estímulos.

sexta-feira, 28 de março de 2014

De Olhos Abertos

A tragédia Édipo Rei, de Sófocles, é uma das peças mais famosas, mais discutidas e mais estudadas de todo o repertório clássico, e sua popularidade aumentou ainda mais por causa da psicanálise.   Na verdade, o título Édipo Rei é uma tradução aproximada de Οἰδίπους Τύραννος (Oedipus Tirannus, ou seja: Édipo Tirano), sendo que a expressão “tirano” não era pejorativa em suas origens: apenas designava alguém que chegou ao poder sem ser por eleição ou outro meio convencionalmente admitido.

Sófocles narra o drama de Édipo de uma forma magistral, fora da ordem cronológica, revelando aos poucos os elementos do passado do herói até chegar ao desfecho chocante. As linhas gerais da trama são bem conhecidas: Édipo ouve e uma profecia dizendo que ele está destinado a matar o próprio pai e a casar com a mãe.  O jovem decide tentar evitar esse futuro e sai da cidade para afastar-se dos pais.  Um dia, na estrada, desentende-se com um grupo de viajantes e acaba por matá-los (menos um, que escapou).  Continuando suas viagens, chega à cidade de Tebas, que estava sendo ameaçada por uma criatura monstruosa, a Esfinge.  Édipo derrota o monstro, casa com a rainha e torna-se o novo governante.  Tempos depois, fica sabendo que um dos homens que ele matara na estrada era seu pai biológico, e que sua atual esposa era, na verdade, sua mãe.  Quando se dá conta da verdade, Édipo fura seus próprios olhos.  Com isso ele se torna o segundo personagem cego da peça: o outro era o adivinho Tirésias – que, apesar da cegueira, percebia o que estava acontecendo. 

Os paradoxos são desconcertantes: Édipo, ao tentar evitar o cumprimento da profecia, acabou contribuindo para que ela se realizasse.  Tirésias, embora cego, conseguia perceber coisas que os outros personagens não observavam.  E quando Édipo finalmente “vê” o que fez, resolve punir-se destruindo seus próprios olhos.

Dá o que pensar.  Vamos tentar manter os olhos abertos.
Sófocles viveu no Século V antes de Cristo
e escreveu 123 peças. 
Apenas sete chegaram completas até nós.

Imagem de domínio público extraída da Wikipedia

quarta-feira, 26 de março de 2014

Longe e Perto, Presença e Distância

O filósofo alemão Walter Benjamin (1892-1940) observou que as técnicas de reprodução de imagens, e particularmente a fotografia, alteraram o conceito de autenticidade da obra de arte: como uma mesma imagem pode ser reproduzida infinitas vezes, não faz sentido falar em cópia “autêntica”. É o que já vinha ocorrendo com a gravura, por exemplo: um artista pode obter uma grande tiragem a partir de uma mesma matriz, e todos os exemplares serão igualmente autênticos. Com a fotografia, esse processo tornou-se ainda mais preciso e impessoal, e passou a ser possível obter, também, cópias de obras pré-existentes.  Nesse caso, é claro que as cópias não têm o valor do original, mas permitem que milhões de pessoas tenham acesso a obras que jamais teriam a oportunidade de conhecer.  Hoje, um estudioso de Michelangelo pode apreciar cada pincelada do teto da Capela Sistina sem sair de casa – e de forma até melhor do que se estivesse presente no local. 

Foi nesse contexto que Benjamin desenvolveu a noção de “aura”, que diz respeito ao caráter de autenticidade que costumava cercar a obra de arte e decorria do fato de ela se encontrar exclusivamente num determinado lugar, num determinado momento, e ser única.   Essa aura, segundo o autor, foi se esvaziando com o desenvolvimento de técnicas de produção em massa.  Uma parte da magia se perdeu, já que uma mesma obra pode ser vista em incontáveis lugares sob a forma de cópia, e que até mesmo as noções de “original” e “cópia” não são aplicáveis a certas produções (como as gravuras e as fotografias artísticas). 



Creio que um fenômeno similar pode ser visto nas relações humanas: a Internet permite que conversemos com pessoas em todo o mundo, vendo-as e ouvindo-as como se estivessem diante de nós, e isso é algo bem positivo.  Ainda assim, corremos o risco de deixar de encontrar nossos amigos e familiares porque já convivemos com eles na esfera virtual.  É o preço do progresso: a aura do encontro está se dissipando...
Walter Benjamin,
um dos grandes filósofos do Século XX,
foi também ensaísta, crítico literário e tradutor.
Foto de Gisela Freund, extraída da Wikipedia.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

O Bacon que Faz Bem

Esta é uma nova versão, revista e ampliada,
 do texto inaugural deste blog, publicado em 24/11/2011.

Quem leu o romance O Nome da Rosa, de Umberto Eco, deve lembrar de várias referências a Roger Bacon (1214-1294, aproximadamente), o frade, cientista e filósofo medieval.  Ele acreditava que a natureza poderia ser compreendida mediante a observação atenta e a experimentação - um conceito novo à época.  

Bacon foi o primeiro filósofo conhecido a dar um curso completo sobre Aristóteles, muito embora houvesse proibições nesse sentido.  Foi também o primeiro europeu a descrever a composição da pólvora; estudou profundamente a óptica; enfatizou a importância da matemática para as ciências naturais; era um conhecedor do ocultismo, incluindo a alquimia e a astrologia (sendo que, na época, esses conhecimentos não eram tão incompatíveis com o pensamento científico como hoje); escreveu sobre a possibilidade de conciliar a ciência com a teologia e, sobretudo, criticou a aceitação passiva das lições dos mestres nesses dois campos.

A pedido do papa Clemente IV, Bacon elaborou um livro que explicando todo o seu pensamento: foi assim que surgiu o monumental Opus majus, uma síntese de suas pesquisas e conclusões.  Essa grande obra discute os obstáculos para se chegar à verdade; as relações entre filosofia e teologia; o estudo das línguas bíblicas, da matemática, da óptica, da ciência experimental, da moral e da ética. É incrível que uma única pessoa tenha estudado tanto, e tão profundamente, todos esses assuntos – ainda mais dadas as restrições tecnológicas da época.  Não é à toa que o frade ficou conhecido postumamente como Doctor Mirabilis: algo como “Professor Maravilha”. 

Uma mente genial pode incorrer em dificuldades: Bacon foi submetido à prisão eclesiástica entre 1272 e 1279 por causa de suas ideias inovadoras, vistas com desconfiança por seus superiores como sendo “novidades suspeitas”.  De fato, como mostra Alain De Libera em A Filosofia Medieval, o frade filósofo criticou diversos aspectos de seu tempo, inclusive o padrão de ensino: advogava a abertura dos currículos acadêmicos para as ciências não-teológicas (principalmente os estudos matemáticos) e o ensino de línguas como o grego, o hebraico, o caldeu e o árabe, que permitiam a pesquisa em outras fontes.  Para ele, a sociedade poderia ser modificada “pela ciência e pela sabedoria”, e o erro humano tinha três causas gerais: a autoridade indigna de confiança, o hábito e o senso comum.  Em certa medida, são causas que chegam até os dias de hoje.

Essa grande mente chegou ao fim num convento em Oxford, quando tinha cerca de 80 anos – uma idade excepcionalmente avançada para o Século XIII.  Ele estava à frente de seu tempo até na expectativa de vida. 

Se quisermos encontrar um dos grandes precursores do pensamento científico moderno, devemos lembrar do genial franciscano questionador que utilizava o raciocínio e a investigação para compreender o mundo.  Roger Bacon foi uma luz muito brilhante que iluminou o terreno para os séculos que viriam a seguir. 

Sempre que vejo, ainda em nossos dias, a superstição e a ignorância, imagino o que pensaria o bom Doctor Mirabilis.  Talvez ele se impressionasse com o fato de que, mais de 700 anos depois de sua morte, ainda houvesse a aceitação passiva do aparentemente inexplicável. 

Para conhecer mais:

CLEGG, Brian.  The First Scientist: A Life of Roger Bacon. New York: Carroll & Graf Publishers, 2003.

DE LIBERA, Alain.  A Filosofia Medieval. São Paulo: Loyola, 1998.


GILSON, Etienne.  A Filosofia na Idade Média. São Paulo: Martins Fontes: 2001

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

No Mundo da Lua

Esta é uma nova versão para uma postagem de 2011.  Achei que a ocasião merecia, pois em 5/2/2014 completamos 43 anos da alunissagem da Apollo 14.



Pode-se dizer que o ramo das viagens espaciais foi inaugurado na literatura por Cyrano de Bergerac, com Viagem à Lua (lançado de forma póstuma em 1657), uma obra satírica.   Mais de 200 anos depois, Julio Verne publicou Da Terra à Lua (1865), seguido por Ao Redor da Lua (1870), procurando dar um tom mais verossímil e científico a essa jornada. 

O Século XX já começou com H.G. Wells publicando Os Primeiros Homens na Lua (1901), e com o cineasta francês George Mélliès lançando o filme Viagem a Lua (1902), livremente adaptado das obras de Verne.  O tema foi retomado diversas vezes por grande número de escritores e cineastas, e era inevitável que tanto fascínio pela exploração da Lua deixasse o plano da ficção e passasse para a realidade: em 20/7/1969, Neil Armstrong e Edwin “Buzz” Aldrin, da missão Apollo 11, tornaram-se os primeiros homens a pisar no nosso satélite, coroando o longo processo de estudos e avanços graduais que tornaram possível esse feito.  Em novembro do mesmo ano, a missão Apollo 12 realizou nova alunissagem – e teria ocorrido mais uma, em abril de 1970, se não fosse o acidente quase fatal com a Apollo 13.  

No dia 5 e de fevereiro de 1971, quando eu estava perto de nascer – já se vão 43 anos - os astronautas Alan Shepard e Edgar Mitchell, da Apollo 14, realizaram o terceiro pouso tripulado na superfície lunar.  O local escolhido foi Fra Mauro, uma região montanhosa onde se situa a cratera de mesmo nome.  Durante os dias 5 e 6, os astronautas caminharam, instalaram equipamentos científicos, tiraram fotos e coletaram 42 quilos de rochas lunares.  Antes de partir, Edgar Mitchell tirou um retrato mostrando as pegadas deixadas no solo lunar e, ao longe, o equipamento científico. 

40 anos depois, a Lunar Reconnaissance Orbiter (LRO), uma sofisticada nave-robô de 1.900 kg, fotografou precisamente o local onde Sheppard e Mitchell caminharam, registrando até mesmo as pegadas da dupla entre o módulo de pouso e os equipamentos científicos. Como a Lua não tem atmosfera, os passos dados pelos astronautas continuam impressos no solo, exatamente como estavam em fevereiro de 1971. 

É bom saber que, se um dia a vida for totalmente aniquilada na superfície da Terra por causa da insensatez dos homens, essas pegadas ainda continuarão lá em cima, como testemunho do que a humanidade pôde conquistar.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Por Trás da Máscara

Ao contrário de tantos amigos, eu geralmente evito comparecer em festas e lugares cheios de gente, principalmente quando há música alta, agitação e calor.  Por isso, o Carnaval não é exatamente a minha época favorita do ano.  

Eu estava relembrando alguns carnavais que passei em casa – e que, apesar de tudo, foram bons – quando pensei no Carnaval vienense, com suas máscaras enigmáticas.  Para mim, é impossível pensar nessas máscaras sem lembrar do filme De Olhos Bem Fechados (obra final de Stanley Kubrick, de 1999) – que, por sua vez, é uma adaptação de um livro de 1926: o Breve Romance de Sonho, de Arthur Schnitzler (1862-1931), escritor austríaco que explorava os recantos mais misteriosos da sexualidade e das paixões humanas em geral.

Schnitzler era médico, como o pai e o avô materno.  Não tinha particular entusiasmo pela Medicina e sua verdadeira vocação estava nas letras, mas  a profissão de escritor não era vista como o melhor caminho para um jovem nascido numa família vienense burguesa, filho de um famoso laringologista e professor.  No final das contas, prevaleceu o talento sobre a imposição familiar e social.  O clínico tornou-se um grande dramaturgo e escritor, e seus escritos chamaram a atenção de um outro médico vienense: Sigmund Freud, o criador da psicanálise.    

Numa carta a Schnitzler, Freud  observou como o escritor conseguiu intuir coisas que ele próprio só descobriu após muito trabalho.   De fato,  os meandros da psique foram explorados por Schnitzler à sua própria maneira, na literatura e no teatro - talvez beneficiando-se de sua vasta experiência como conquistador inveterado que chegou a manter registros escritos de suas experiências sexuais, inclusive do ponto de vista numérico.

No Breve Romance de Sonho, o personagem principal é Fridolin (um médico, como o próprio autor), que fica abalado por sua mulher admitir ter tido fantasias sexuais com outro homem.   Mais tarde, ele é convocado para atender um paciente em estado grave, e depois fica vagando pelas ruas.  Por acaso, encontra Nachtigall, um antigo conhecido.  Nachtigall é músico, e explica que vai tocar piano numa orgia onde os convidados usam máscaras.  Fridolin resolve acompanhá-lo, e a história se desenvolve a partir daí numa densa trama com sexo, temores e pessoas mascaradas (qualquer semelhança com o Carnaval é mera coincidência).

Nas histórias de Schnitzler, o medo e o desejo – esses irmãos gêmeos -  se entrelaçam, flertam com a loucura e, muitas vezes, terminam em morte.   As máscaras acabam caindo, ao final.  Como na quarta-feira de cinzas.



terça-feira, 4 de junho de 2013

Caminhos da Reportagem

Hoje passei uma tarde muito agradável com a equipe do programa Caminhos da Reportagem, da TV Brasil. 
Conversei com a repórter Tais Faccioli sobre quadrinhos e tive o prazer de mostrar minha coleção. 
O programa será exibido no dia 18 de julho, quinta-feira, às 22h.  Eu falei sobre minha paixão sobre o tema e mostrei algumas "pérolas" do meu acervo. 
O pessoal foi muito simpático e profissional.  Desejo sucesso ao programa.
Foto: PROGRAMA CAMINHOS DA REPORTAGEM.    
O programa sobre quadrinhos vai ser exibido no dia 18 de julho.  Tomara que eu não tenha falado muita bobagem...  Nesta foto: a repórter Tais Faccioli e a equipe da TV Brasil.